
Os Vagalumes
Mãinha teve uma infância simples, daquelas que o tempo guarda com silêncio e poeira. Morava em Frecheirinha, no pé de uma serra do Ceará, numa casinha de palha, que nem era deles, era emprestada do dono do terreno.
Ali vivia com o pai, a mãe e uma porção de irmãos – ela diz que eram oito ou nove, mas nem se lembra mais do número certo. Muitos se foram cedo demais. Tanto que, quando perguntei pra minha mãe, Ana Márcia, quantos irmãos mãinha tinha, ela só disse que só conheceu dois, Zé Pipa e Tarcísia. Mas, mesmo com tudo isso, mesmo com o peso que a vida trouxe desde cedo, mãinha sempre soube ver o bonito onde quase ninguém olha.
Ela diz que a casa era afastada, um pouco longe da rua e que, todo domingo, sem faltar, acordava às cinco da manhã pra ir à missa com a família. O que ela mais gostava era do caminho, do antes, do escuro ainda dormindo. E, acima de tudo, dos vagalumes.
Fala deles com os olhos brilhando, quase como se a luz dos vagalumes morasse no seu rosto. Os bichinhos que acendiam no meio do mato, como se fossem estrelas perdidas na terra, iluminavam o chão, o caminho, os sonhos dela de menina, que parecia nem entender ainda o peso da vida. Era naquele momento, antes do sol nascer, que ela sentia um tipo de paz que nem tem nome. O mundo sussurrava coisas boas, que os vagalumes sabiam de segredos que ninguém mais sabia.
Hoje eu nem vejo mais vagalumes por aí, mas, quando olho pra mãinha e ela sorri lembrando do tempo de menina, parece que eles ainda vivem, nos olhos dela, iluminando o mundo bem quietinho, do jeito que só ela sabe fazer.

